Há duas coisas que ele sempre odiou nos humanos e isso qualquer um podia notar;
Primeira: Eles eram frágeis, extremamente frágeis. Se usasse de sua força total era capaz de parti-los ao meio com facilidade.
Segunda: Eram tão promíscuos, tão fáceis de manipular, aquilo o irritava muito. Era só lançar seu melhor olhar 43 que todos, todos os que olhavam se sentiam hipnotizados e fascinados por ele.
Mas talvez, a coisa que mais odiava nos humanos era o fato de nenhum ser igual a ela. Ela foi a única pessoa que resistiu ao seu encanto. A única que resistiu a sua força. A única que foi capaz de amansá-lo, se é que isso era possível. Perto dela ele se sentia humano de novo, sentia seu coração bater de novo. Sentia-se vivo.
Mas agora, ele só queria descontar sua raiva na raça humana, só queria vê-los sofrer, só queria ver a dor e agonia quando sugava seu sangue. Para ele nada mais importava.
- Erick, você precisa parar com isso. – Disse Valquiria, uma de suas antigas companheiras quando entrava no seu quarto pela janela, na noite seguinte.
- Parar com o quê? – Perguntou, estava irritado como sempre, dando uma tragada em seu cigarro.
- Trazer vadias para cá e matá-las. – Disse Valquiria, cutucando com a ponta da bota preta de couro o corpo inanimado da mulher. – Além de feder, logo vão começar a procurar por ela.
- Hunf. Como se eu me importasse. – Disse ele, revirando os olhos na órbita, um sorriso amargo no rosto. – Por que você está aqui? Meu pai se cansou de você? – O sorriso agora era maldoso e cheio de malicia.
- Isso não é da sua conta. Senti cheiro de sangue, pensei em muita gente, mas não esperava que você fosse tão descuidado. – Ainda mexendo no corpo com a conta da bota, virou-o para poder o olhar o rosto da vítima. – Bonita, lembra dela...
Ele não fez nada, não falou nada. Sua expressão era um total vazio, o olhar agora direcionado à janela, procurando algo ou simplesmente olhando nada. Não conseguia dizer no que ele estava pensando. Desde quando se conheceram, há 200 anos, ele era assim, um olhar frio e profundo, personalidade psicótica e sádica. Nunca se importou com ninguém, somente com ela, aquela que jamais conseguira tornar uma igual a ele. Seu amor o impediu de fazer isso.
- De qualquer jeito, seu pai quer vê-lo.
Ele desviou o olhar, não olhou diretamente para a vampira, mas ela percebeu que ele mantinha um sinal de interrogação na testa, queria saber o porquê de seu pai querer vê-lo.
- Ele não me deu muitos detalhes, só disse que iria te interessar.
- E desde quando ele sabe o que me interessa?
- Ele é seu pai.
- Grande bosta.
- Só vim aqui para lhe dizer isso. Não desconte seu mau humor em mim.
- Não espera que lhe peça desculpas.
- Claro que não.
- Então tchau, Val.
- Tchau... – E saiu do mesmo jeito que entrou.
Não tinha percebido antes, mas o som ainda estava ligado e tocava uma de suas musicas favoritas. Seja lá o que fosse que seu pai queria com ele, sabia que ele não gostava de ficar esperando, mas particularmente adorava provocar seu pai. Se levantou da poltrona e decidiu se arrumar, não iria naquele exato momento para a casa de seu pai, primeiro tinha que se livrar do corpo da estranha. Tinha que concordar com Valquiria, ela era realmente bonita e era parecida com ela. Muito parecida.
Não queria prestar muita atenção nisso agora, tinha que se livrar daquele corpo. Pôs uma calça jeans preta, e colocou o corpo no ombro. Sem pressa alguma acionou o elevador do apartamento e, enquanto esperava jogou o corpo no chão de qualquer jeito e pegou um cigarro. Antes de dar a primeira tragada o elevador chegou, puxou o corpo da mulher pelos cabelos, o jogou de qualquer no elevador, e apertou o botão do subsolo, que era onde estava seu carro.
Abriu o porta-malas e jogou o corpo. Pegou uma camiseta preta no banco de trás e saiu da garagem cantando pneu. A casa de seu pai não ficava muito longe dali, e como seu pai queria vê-lo, pensou em lhe dar um presentinho. Sorriu sarcasticamente imaginando a cara de seu pai ao ver o corpo da mulher na sua frente, jogado em sua mesa. Não demorou a chegar na grande mansão de sua família, ela ocupava um quarteirão inteiro do bairro do Ipiranga em São Paulo. Uma das maiores casas da cidade, e ainda se perguntava o porquê de tanto espaço sendo que só viviam lá o pai e suas putas particulares.
Encostou o carro perto do portão principal e nem precisou abrir a porta do carro, um dos muitos serviçais de seu pai lhe fez esse favor.
- Como vai Sr. Ercik? – Perguntou o empregado, ele era claramente um humano, mais um dos que caíram na armadilha de seu pai de lhes dar a vida eterna.
- Melhor se não tivesse que ter vindo para cá. – Resmungou para o empregado. – Tenho um presente pro meu pai no porta-malas então deixa que eu tire de lá.
- Como o senhor quiser. – disse o empregado fechando delicadamente a porta do carro de Erick.
Abriu o porta-malas e o empregado se espantou em ver um corpo lá, iria perguntar o porquê, mas quando viu os olhos de Erick brilhar num vermelho vivo, achou melhor não tentar provocá-lo com perguntas inúteis. Erick colocou o corpo no ombro e entrou na casa sem cerimônia alguma. A julgar pelo cheiro que exalava o hall, suspeitou que o pai estava em uma reunião com humanos sobre qualquer coisa que fosse, iria se entediar fácil se ficasse muito tempo com aqueles seres inferiores, portanto ia só perguntar o que seu pai queria e dar-lhe o presentinho.
- Sr. Ercik, seu pai está no escritório da ala sul, deixe que eu o guie. – Disse um empregada, outra humana, como eles eram idiotas.
- Não precisa, eu sei onde é. – Seu humor estava piorando cada vez mais.
Como não queria enrolar, usou de sua velocidade sobre humana para chegar ao escritório, podia ouvir as vozes dos humanos de longe, inclusive sentir seu cheiro. Entrou sem bater na porta, assustando a todos, menos seu pai.
- Pensei que Valquiria lhe disse que queria vê-lo imediatamente. – Disse um homem do outro lado da sala, sentado na única ponta da mesa que fazia um “v” no meio da sala.
Ele vestia um impecável Black tié, os cabelos longos estavam presos e usava óculos por mero capricho. Os cabelos eram de uma cor mais claro que os de Erick, castanhos, os olhos estavam igualmente vermelhos aos do filho, e sua expressão era séria. Apesar de ter mais de 500 anos, o pai de Erick aparentava apenas ter 45, era tão bonito quanto o filho, mas sua expressão era um pouco mais serena.
- É. Lembro que ela me disse algo assim, mas trouxe um presente. – Disse, caminhando até o centro da mesa e largando o corpo no chão.
Todos os presentes na sala, menos Erick e o pai desviaram o olhar do corpo que já adquirira uma cor branca, igual à pele de Erick. Erick sorria maliciosamente para o pai, enquanto este observava a atitude do filho como se fosse comum ele fazer isso.
- Me espera na sala ao lado. – Disse friamente ao filho, voltando a olhar os papéis à sua frente.
- Não, me diga o que você quer, não quero esperar.
- Erick, estou numa reunião.
- E daí?!
- Eu disse para me esperar na sala.
- Então não deve ser tão importante assim. – Disse, se virando e indo em direção à única janela existente na sala. – Vou embora.
- É sobre Sarah!
Ele hesitou ante o nome proferido. Por que ele tinha que falar dela na frente daqueles imundos?!
- Como é?
Seu pai sorriu.
- Me espere na sala... – Disse, sem nem olhar para o filho, sabia que sua cara agora era uma mescla de raiva, frustração e interesse. Sabia que qualquer coisa sobre ela, era do interesse de filho e ele mordera sua isca.
